A Trégua de Mario Benedetti
Esse livro fininho e quase desconhecido mexeu tanto comigo… “A Trégua”, do uruguaio Mario Benedetti, é um romance breve, mas profundo, sobre o amor, a felicidade, o inesperado e a passagem do tempo. Escrito em forma de diário, acompanhamos a rotina de Martín Santomé, um viúvo de 49 anos à beira da aposentadoria, que vive uma existência pra lá de monótona em Montevidéu.
Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna.
Com uma escrita contida, mas sensível, Benedetti constrói um protagonista mergulhado na burocracia de uma repartição pública e imerso na solidão de um viúvo muito apaixonado pela esposa que se foi logo após o nascimento do terceiro filho do casal.
No decorrer do diário, vamos conhecendo esse personagem real, com suas qualidades e limitações.
Um homem sensível, correto, mas também machista, solitário e um tanto amargurado pela distância entre ele e os filhos. Não há mais expectativas nem sonhos para Martín. A única coisa que o move é sua esperada aposentadoria.
Contudo, apesar desse cotidiano tão previsível, ele ainda é capaz de se surpreender com o amor. A aparição de Laura instaura na vida de Martín uma trégua, uma brecha luminosa em meio a uma vida opaca. Sim, Laura é a trégua: um intervalo colorido em uma existência em preto e branco. É na relação com ela que Martín vai repensar toda a sua vida, sua visão de mundo, e rever a si mesmo e o que significa, de fato, ser feliz.
Tudo caminhava para o conformismo de quem já não espera mais nada. Mas o encontro com Laura rompe esse curso: devolve o espanto, a intensidade, o risco. Essa história dialoga com a proposta de Contardo Calligaris em “O sentido da vida”, em que não se trata de buscar uma felicidade permanente e idealizada, mas sim de viver uma vida interessante — uma vida que nos convoque ativamente como sujeitos do nosso próprio desejo.
