Em um mundo sem memórias físicas, o que sobra de nossa história?

Vivemos em um tempo onde o passado se dissolve na virtualidade. Fotografias não são mais reveladas. Diários, ao invés de escritos à mão, se transformam em posts e registros instantâneos que logo se perdem na imensidão da internet. Jornais, revistas e artigos não são mais impressos: viraram newsletters nunca lidas numa caixa de e-mail lotada de informações desnecessárias
Psicanaliticamente falando, o sujeito é formado por sua história, por seu passado e pelas relações que criou (ou não) durante sua vida.

Porém, na era digital, nossa vida pretérita se torna efêmera. Não temos mais objetos físicos que nos conectem diretamente à nossa memória — tudo é arquivado, mas não tocado. O que não foi apagado está longe do alcance das mãos: permanece na “nuvem”, nesse céu invisível, nesse cemitério digital tão pouco frequentado. O esquecimento deixa de ser obra de um inconsciente e se torna resultado da própria ausência de um registro concreto.

Ao escrever essas linhas, lembrei da história de Nadejda Mandelstam , retratada no livro “ O que ela sussurra’, de Noemi Jaffe, que conta como a personagem, esposa de um poeta , Óssip Mandelstam, morto pela ditadura estalinista, fez para não esquecer dos poemas do marido, já que não podia ter o registro escrito dos mesmos devido ao regime ditatorial em que vivia. Ela sussurrou, diariamente, por 25 anos, 300 poemas do marido que tinha na memória, com o intuito de não deixar que a obra póstuma de seu marido se perdesse no tempo devido à falta de registros físicos.

Ao não termos estas provas concretas do que vivemos, corremos o risco de não sentirmos mais o peso do que fomos. E, sem a presença de nosso passado, esquecemos quem somos. A relação com o passado se dilui, e nossa história se torna algo volúvel, momentâneo, como um sussurro que não foi ouvido.