O Caderno Proibido de Alba de Céspedes
Valeria Cossati sai apenas para buscar cigarros para o marido, mas acaba comprando ilegalmente um caderno preto e faz dele seu diário. Ela leva a vida entediante de uma mulher de classe média, dividida os entre os papéis de mãe, esposa e funcionária de escritório. Há anos não ouve o próprio nome. Seu marido só a chama de mamãe e sua relação com os filhos é marcada por conflitos geracionais. Porém, conforme alimenta aquelas páginas proibidas, começa a notar uma transformação em si mesma, cujas consequências são imprevisíveis.
Em O Caderno Proibido, a autora Alba de Céspedes nos conduz ao universo íntimo de Valéria, uma mulher que, ao iniciar um diário secreto, começa também a questionar sua vida e os papéis impostos a ela como mãe, esposa e profissional. Impossível não lembrar aqui de Silvia Frederici, feminista e historiadora italiana, que nomeia estes “afazeres domésticos” – cuidar da casa, dos filhos, do marido- de trabalho reprodutivo e como ele é invisibilizado sob o capitalismo. Esse é exatamente o lugar onde Valeria se encontra. Ela é uma mulher que trabalha fora, mas ao mesmo tempo carrega sozinha a responsabilidade doméstica, sem qualquer reconhecimento. A família espera que ela “dê conta de tudo” naturalmente, como se cuidar da casa e das pessoas fosse um dom ou um dever natural da mulher, e não um trabalho.
A escrita clandestina torna-se um gesto de resistência frente a uma vida regida por obrigações e silenciamentos. Ao registrar suas contradições e desejos, Valéria revela a opressão cotidiana que marca a experiência feminina: o apagamento de si em função dos outros, o julgamento moral e a solidão de quem ousa sair da insignificância. A narrativa expõe, de maneira firme e delicada, a impossibilidade de uma liberdade plena dentro de estruturas patriarcais que domesticam até os nossos pensamentos. O livro foi escrito na Itália dos anos 50, mas seus temas permanecem atualíssimos, já que seus questionamentos são os de muitas mulheres da atualidade. Ao ler este livro me pergunto: o que resta da Valéria em mim¿ E em você¿
